O significado da festa de São João

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24 de junho é a data de nascimento de João Batista. Ela marca o oposto da data de nascimento de Jesus. Unidas, formam o grande braço da cruz que se encontra dentro do círculo do ano. A Páscoa e a festa de São Micael marcam o outro braço da cruz. Assim se forma a estrutura do ano.

São João, o João Batista, é o exemplo singular e oposto em relação a Cristo. Ele nasceu de pais velhos e sábios, o sacerdote Zacharias e Elizabeth, sua esposa, que se encontrava em idade avançada, na qual a mulher normalmente não temais força vital reprodutiva para engravidar.
Maria, mãe de Jesus, ao contrário, era jovem – como nos relata Lucas – com 17 anos de idade, e nunca havia encarnado. Ela tem a alma pura. Elizabeth, mãe de João, tem uma ampla sabedoria. Ambas são seguidoras da ordem dos Essênios, a mais espiritual da época do povo judeu. E se encontram quando estão grávidas. Ps evangelhos contam que o bebê no ventre de Maria pula de alegria.
O primeiro Adão, João, e o segundo, Cristo, se encontram no caminho da descida, ainda em fase embrionária.
Ainda criança, João é educado para uma vida sacerdotal. Ele alcança os mais elevados graus de iniciação ainda jovem e mais tarde é chamado de Mestre da Justiça. Jesus, antes do batismo no Jordão, era chamado de Mestre do Amor.
Após anos de estudo, João se retira para o deserto e começa a pregar a mudança espiritual que está para vir e a realizar o rito do batismo, marcando a transformação interior dos batizados.
Muitas vezes ele é confundido com o Messias.
Na festa de São João está a grandiosa individualidade de João Batista, como exemplo para nos orientar neste caminho individual que iniciamos na festa de Pentecostes. O Campo onde começamos é o deserto, na superfície quase não há vida, e o calor extremo do dia contrasta com o frio rigoroso da noite. Quem conhece o deserto não se desespera, sabe procurar água escondida, encontrar o oásis de milagres e surpresas, buscar alimentos para manter o corpo, e saber apreciar o grande espetáculo que chega todas noites: um céu imensurável recheado de estrelas, que são os grandes amigos e companheiros de jornada.
Nós andamos no deserto. Não no deserto físico, mas no anímico. Na época de Cristo, o povo de Israel estava em decadência, enfraquecido com as sucessivas desilusões, com os falsos messias que apareceram e tinha a mente cética. A religião perdera toda a força dos mistérios, sendo um templo burocrático e vazio, andando ao lado do poder temporal. Neste final de século vivemos uma situação parecida, só mudaram as simbologias dos messias que nos são oferecidas.
De certa forma essa foi a herança do incrível desenvolvimento científico que o mundo conheceu a partir da segunda metade do século XVII. Uma das grandes alavancas desse desenvolvimento foi a visão mecanicista de Descartes a respeito do mundo. A física se desenvolveu a partir dessa importante visão que tratava o mundo como uma grande máquina de objetos reunidos. As pessoas passaram a se ver como egos existindo isolados dentro de seus corpos. Em consequência passaram a ver o mundo também como um amontoado de objetos e fatos isolados, em relação entre si. Para os budistas isso é ávida (ignorância):
“Quando a mente é perturbada, produz-se a multiplicidade das coisas.
Quando a mente é aquietada, a multiplicidade desaparece.”
Neste caminho pelo deserto anímico temos a oportunidade de descobrir o que realmente nos toca, o que realmente tem a ver conosco. Talvez percebamos que não temos a menor ideia do caminho a tomar, talvez lamentemos, como crianças indefesas, que não ter o auxílio um líder, talvez empaquemos como burros diante de obstáculos.
Mas se conseguirmos calar todas as inquietações e sentarmos em silêncio interior, poderemos perceber que o calor e o vento podem ser nossos aliados, basta que andemos com eles e não contra eles. Assim temos irmãos poderosos que nos ajudam.
Se nos sentarmos, olhando o manto escuro da noite, podemos perceber que a nossa alma é um espelho e que as milhões de estrelas do céu são imagem espelhada por nós. Casa um de nós tem toda a sabedoria do universo dentro de si, de forma latente, basta descobrir isto e, corajosamente, seguir o caminho. Quem consegue andar sozinho é seguir e serve de exemplo para os demais.
João Batista é o nosso grande mestre do caminhar no deserto anímico. Ele demonstrou que, em momentos graves, é preciso de apenas um ser humano para mudar roda a trajetória da humanidade. E esse um pode se qualquer um de nós.
O exemplo de João vai mais além. A esposa de Heródes, a rainha Herodia, é denunciada publicamente por ele, como uma pessoa decadente que abusa do poder e do conhecimento que tem de forma egoísta. Logo depois do batismo de Jesus, ele é preso e decapitado. Sua cabeça é levada como presente para Herodia. Ele nos mostra que sendo fortes e seguros, podemos derrotar as forças adversas independente de sermos muitos. Se num primeiro momento parecemos desaparecer, derrotados, diante de um furação que destrói tudo por onde passa, se nos resguardarmos em segurança e nos mantivermos fortes, assim que passar a tempestade podermos nos levantar com todo nosso potencial. As forças que genericamente chamamos de mal têm como característica uma forte expansão inicial e, quando parece estar no auge de sua solidez suas próprias fraquezas, como um apodrecimento interior, as derruba. É sempre uma questão de tempo. O mal consome-se a si mesmo. O amor expande-se infinitamente.
Outro aspecto é a consciência do auto julgamento que João Batista representou exemplarmente como Mestre da Justiça. Ele não trouxe a justiça da velha pedra dos dez mandamentos, mas a capacidade do julgamento interior. Ele não precisava de regras externas para se ajoelhar diante de Cristo. Ele, como o mais forte da humanidade, o primeiro Adão, reencarnado, declara: “Ele precisa crescer. Eu preciso diminuir.”
A força e o poder que adquirimos são para serem usados para encaminhar e ajudar o próximo. Depois do nascimento de Cristo, três virtudes são inerentes à grande transformação:
1 – Proteger o mais fraco
2 – Respeitar o igual
3 – Referenciar o superior
Nós protegemos todos os seres que estão inferiorizados, os seres da natureza, os mais fracos, as crianças os doentes, etc. Respeitamos a vontade do igual, do ser humano adulto. E admiramos o que nos é superior, como o céu e as hierarquias espirituais.
Com o desenvolvimento da espiritualidade temos plenas condições para reconhecer, com um olhar, quem é maior em sabedoria e em amor e que merece ser seguido. Quando João diz que não é digno de batizar Jesus, este reconhece o poder do ato sacramental e pede para ser batizado. Um reconhece ao outro, sem importar quem é maior ou menor, impulsionando o mundo a se desenvolver.
Esta é a nova justiça. Nós sabemos a quem servir, ajoelhando, e a quem conduzir, ficando de pé. A justiça nova é a do livre reconhecimento, sem vaidade, ambição e inveja.
Após passarmos esta festa de junho, é hora de seguirmos para mostrar quem somos.

Costumes

As fogueiras acesas à noite são símbolos do fogo interior que precisamos acender para iluminar e esquentar nossas noites de inverno. Quem não acender essa luz ficará na escuridão e morrerá de frio.
Também o costume de soltar pipas tem muito sentido. Quem não solta a própria alma para voar até as nuvens e se deleitar com o grande sopro-vento da sabedoria não vai conseguir andar sozinho. Tudo o que nós fazemos exteriormente tem uma força de fortalecimento interior.
Podemos aproveitar ainda para lembrarmos que, em depressão, ninguém anda. Os antigos guerreiros dançavam antes do combate para ter força. Precisamos dançar e cantar mutilara nos fortalecermos animadamente e seguirão mais confiantes. Devemos, ainda, exercitar o velo exercício de rir de nós mesmos. Quem sabe rir dos seus erros, pode rir dos erros alheios sem crítica.

Texto extraído do livro “O Caminho de Cristo” de Karin Evelyn de Almeida

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